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Símbolo do fracasso neoliberal, termina "Corralito" na Argentina


Redacción, 23 de agosto 2005
Ontem (22), foi o último dos 1.356 dias de vida do "corralito", o congelamento dos depósitos bancários imposto pelo ex-ministro de Economia da Argentina Domingo Cavallo, em dezembro de 2001. A medida radical foi tomada quando o modelo neoliberal do ex-presidente Carlos Menem entrou em sua crise terminal. Previsto para durar somente 90 dias, o "corralito" durou quase quatro anos, representou o fim dos dez anos de conversibilidade (um peso = um dólar) e provocou os trágicos panelaços daquele final de 2001 — os quais exigiram a renúncia do ex-presidente Fernando De la Rúa.

Do "corralito" ficaram somente 526 milhões pesos (US$ 181,4 milhões), incluindo o ajuste pela inflação, o que representa menos de 1% do que fora congelado na época. O "corralito" foi criado numa tentativa desesperada para brecar a fuga de capitais. Os vencimentos dos depósitos foram reprogramados, num valor de 55 bilhões de pesos (US$ 18,97 bilhões). O resultado da medida radical do modelo neoliberal foi uma onda de manifestações que tiveram lugar na Argentina, entre os dias 19 e 20 de dezembro de 2001. Elas inauguraram claramente um novo ciclo político e de lutas na história do país.

Entre o Natal e a Epifania de 2002, os argentinos protestaram nas ruas contra o "corralito" aos brados de "queremos dólares". "Desgraçadamente, neste momento, a conversibilidade do peso já era assunto para historiadores", comenta Luiz Gonzaga Belluzzo, professor titular de Economia da Unicamp (Universidade Estadual de Campinas). O conservador Financial Times disparou, então, um editorial sobre os acontecimentos.

Aventura econômica

Dizia o jornal inglês: "A crise argentina suscita questões fundamentais sobre os custos e os benefícios da abertura financeira nos países em desenvolvimento, convidados a seguir as prescrições do governo americano e do Fundo Monetário Internacional. Esses mercados estão sujeitos a surtos de euforia e depressão (...). Estimulam os governos a tomar emprestado quando os juros são baixos e logo depois os deixam na mão, desprovidos de recursos".

Segundo Beluzzo, a aventura econômica argentina dos anos 90 — a farsa da conversibilidade com taxa fixa — teve o desfecho que o bom senso e a história do século 20 preconizavam. Mas, como tem acontecido nesses tempos de celebração dos "mercados", a opinião dominante e renitente só jogou a toalha quando o tropel da catástrofe galopava. "Pense o leitor em certas damas e senhores do colunismo nativo — impresso ou eletrônico — a quem devemos agradecer de joelhos a revelação diária de como é o mundo e, melhor ainda, de como deveria ser. Em algum momento, eles entoaram loas para as patranhas econômicas de Cavallo & Cia", diz o professor.

Derrocada financeira

Segundo Beluzzo, a conveniência dessa gente faz com que os interesses do país não sejam levados em conta. "Depois da derrocada de seus mandamentos econômicos, foram acometidos de uma modalidade bastante singular de esquizofrenia: dividiram seus ressentimentos entre a fúria contra o 'calote', a autocomplacência com suas próprias opiniões e a compaixão pela sorte dos investidores", diz ele.

O professor lembra que estes setores lançaram a fúria contra os "políticos" argentinos, "incompetentes e corruptos", incorrigíveis no mister "de gastar acima de seus meios". "A autocomplacência os sabichões reservaram, como sempre, para seus próprios erros, avaliações, aconselhamentos e previsões grotescas", afirma. "Tudo coroado com a compaixão pelo sofrimento dos velhinhos italianos, os coitadinhos generosos que esfregavam as mãos na esperança de receber o principal em moeda forte acrescido de juros de país periférico em derrocada financeira", analisa.

Com agências internacionais


Publicado no Diário Vermelho



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