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*Saddam
Hussein expõe ilegitimidade de tribunal
fantoche
Redacción
20 de outubro 2005
O presidente deposto do Iraque Saddam Hussein
negou-se a responder às perguntas feitas pelo juiz e também
negou-se a reconhecer a legitimidade do Tribunal Especial
Iraquiano (TEI), formado pelo governo fantoche do país.
Hussein foi levado ao "tribunal" ontem (19) em Bagdá,
sob aacusação de que teria ordenado o o massacre de
143 xiitas em 1982.
"Reivindico o
direito constitucional de fazer valer meus direitos de chefe de
Estado e me recuso a responder", disse, dirigindo-se ao
presidente do tribunal. "Não reconheço sua
autoridade porque todo (este tribunal) carece de fundamento",
acrescentou.
O ex-vice-presidente Taha Yassine Ramadan,
vestido com uma túnica branca, também não
quis dar sua identidade, limitando-se a dizer que sua "identidade
fora roubada". Acrescentou que confirmava "o que o
presidente Saddam Hussein disse".
Redes
de TV iraquianas mostraram imagens do início do julgamento
e do presidente do tribunal, o curdo Rizgar Mohamed Amin , que lia
um documento. "Esta é a primeira audiência, do
primeiro caso, Dujail", disse o presidente do tribunal, antes
de chamar os oito acusados. Hussein estava sentado e rodeado por
uma cerca de 1,5m de altura. Todos podem ser condenados à
pena de morte.
Farsa
A
filha mais velha de Hussein, Raghad, criticou desde Amã, na
Jordânia, onde está exilada, a farsa do julgamento,
informou um membro do comitê de defesa. "Raghad está
aborrecida com o modo como o julgamento é realizado,
principalmente com a ausência dos advogados solicitados por
seu pai", disse em Amã (Jordânia) o advogado
jordaniano Issam Ghazzawi, referindo-se ao comitê de defesa,
que inclui letrados árabes e estrangeiros, entre eles o
ex-secretário de Justiça americano Ramsey Clark. O
conjunto de advogados não foi escolhido por Hussein,
tampouco pôde conversar com o acusado livremente, como o
exigido pelas convenções internacionais.
Apenas
o advogado iraquiano Khalil al Dulaimi foi autorizado pelo governo
fantoche e pelas forças de ocupação a
defender o presidente deposto. Entre as acusações
contra os oito réus estão as de "assassinato,
expulsão, prisão, tortura e desrespeito às
normas internacionais".
Durante a sessão,
Hussein observou a troca de argumentos entre acusação,
defesa e o presidente do tribunal, sem fazer intervenções.
Após uma breve audiência, o juiz adiou a sessão
e marcou a próxima audiência para 28 de novembro
próximo. Al Dulaimi havia pedido um adiamento por três
meses, mas o juiz optou por pouco mais de um mês.
Tensão
A
tensão era sentida em todo o país com o início
do julgamento, dois anos após Hussein ter sido capturado
pelas tropas americanas, em 2003. Em Tikrit, cidade natal do
ex-presidente e de quase toda sua família, a tensão
era mais evidente. Dezenas de pessoas concentraram-se em um
estádio da cidade para protestar contra o julgamento.
No
Iraque, as reações ao início do "julgamento"
do ex-presidente foram variadas. A mídia ocidental procurou
exibir imagens de muçulmanos xiitas e curdos se
manifestando a favor de penas duras contra Hussein. A imprensa
colaboracionista, dirigida por antigos adversários do
governo de Hussein, colocou o "julgamento" em suas
manchetes. "Julgamento de um tirano" e "Primeiro
ditador árabe a ser julgado" estampavam alguns
jornais. Na imprensa da comunidade sunita, o julgamento foi
mencionado, sem grandes artigos.
Em nenhuma outra parte o
contraste foi tão marcante quanto nos distritos bagdalis de
Azamiyah, de maioria sunita, e Kazimiyah, de população
xiita, separados apenas pelo Rio Tigre. Apenas um fator unia as
duas populações: a precária rede elétrica
de Bagdá. A energia falhou diversas vezes durante a
transmissão do julgamento.
Na televisão, as
grandes redes se preocuparam em mostrar os sentimentos dos
oposicionistas e silenciaram em relação às
grandes manifestações em Tikrit, Bagdá e
Faluja, a favor de Hussein. Uma seqüência veiculada
pela CNN mostra uma dona-de-casa xiita cuspindo na tela da
televisão ao ver a imagem de Hussein. Quando o juiz se
dirigiu ao ex-presidente como "senhor Saddam", ela
gritou: "Monstro Saddam, você quer dizer!" Do
outro lado do Rio Tigre, num bairro de maioria sunita — a
mesma confissão de Hussein — alguns moradores também
ficaram galvanizados pelas imagens na TV. Namir Sharif, ex-oficial
do Exército, quase chorou de orgulho ao ver Hussein
desafiar a autoridade do tribunal. "É um ato heróico",
disse.
Alguns iraquianos assistiram à primeira
sessão do tribunal com temor ou ódio, outros com
alegria, outros ainda com amargura e até uma certa
nostalgia. Mas todos assistiram com atenção,
incapazes de desviar os olhos da imagem do antigo líder,
antes senhor supremo do Iraque, agora réu em
julgamento.
Palestinos
querem Bush lá
Para
os palestinos, Hussein é mais vítima do que algoz,
um alvo direto do imperialismo americano. Para os israelenses, o
presidente iraquiano deposto é uma figura demoníaca.
Os dois lados têm visões opostas do julgamento de
Saddam. Os palestinos acreditam que o ex-presidente é
vítima de uma injustiça; os israelenses esperam que
o julgamento sirva de alerta a outros déspotas do Oriente
Médio.
Osama Shagnobi, um morador de Gaza, lembra
dos cerca de US$ 21.000 que sua família recebeu do governo
iraquiano por causa da morte do irmão, Mohammed, num choque
com soldados israelenses. "Não é possível
comparar a vida do meu irmão com dinheiro nenhum no mundo,
mas sentimos que Hussein estava entre as poucas pessoas ao nosso
lado e mostrou que alguém se importava com a perda que
sofremos", disse Shagnobi.
Por intermédio de
organizações assistenciais islâmicas, o regime
de Saddam enviava regularmente dinheiro a parentes de homens-bomba
e de extremistas mortos em combates com Israel. Os palestinos
também reverenciaram Saddam quando ele disparou 39 mísseis
Scud na direção de Israel durante a Guerra do Golfo,
travada em 1991. Os disparos causaram danos consideráveis,
mas poucas vítimas.
Já os israelenses têm
uma posição totalmente diferente, algo bastante
esperado. Para eles, o julgamento de Saddam é visto como um
"evento que obrigará líderes árabes"
a perceber que poderão "pagar por seus atos",
repercutindo a opinião da mídia oficial americana e
israelense. "Hoje é um dia especial, pois um terremoto
atinge o mundo árabe, com líderes pagando por seus
crimes", vituperou o ministro israelense das Relações
Exteriores, Silvan Shalom, em entrevista à Rádio
Israel.
Em Jerusalém, o israelense Bibi Nissin, de
51 anos, disse acreditar que Saddam terá um julgamento
"justo". "Espero que ele seja condenado à
prisão perpétua. E não me importa onde ele
cumprirá a sentença, já que não estará
aqui em Israel."
Muitos palestinos, revoltados com o
favorecimento americano a Israel e com a ocupação do
Iraque, gostariam que o presidente dos EUA, George W. Bush, fosse
julgado junto com Hussein. "Se ele é um assassino, o
que poderíamos falar dos atos americanos cometidos no
Iraque?", questionou o motorista de taxi Saed Souror, de 32
anos. "Para existir justiça, Bush e Saddam deveriam
ser levados ao banco dos réus juntos."
Veja
abaixo parte da transcrição do início do
"julgamento":
Hussein:
Aqueles que lutaram pela causa de Deus serão vitoriosos...
estou à mercê de Deus, o mais poderoso.
Amin
(juiz 'responsável'):
Senhor Saddam, por favor, nos diga sua identidade, seu nome...
Você tem bastante tempo, você terá tempo
suficiente para dizer o que quiser e expressar seus pensamentos.
Mas esta corte tem um procedimento e nós temos que
segui-lo.
Hussein:
Quem são vocês? O que vocês estão
fazendo aqui? Eu não respondo a esta "chamada"
corte, com todo o respeito. E me reservo o direito constitucional
como presidente do Iraque (...) Eu não reconheço nem
a entidade que autoriza vocês, nem a agressão, porque
tudo baseado em falsidade é falsidade... Você já
foi juiz antes?
Amin:
Não há espaço para este tipo de conversa
neste tribunal.
Hussein:
Estou neste tribunal militar desde as 2h30 da madrugada, e usando
a mesma roupa desde as 9h. Você me conhece, você é
iraquiano e sabe muito bem que eu não fico cansado.
Amin
:
Estou aqui para perguntar sobre sua identidade.
Hussein:
Eu respondi essa pergunta por escrito e a enviei a você.
Amin:
Senhor Saddam, vá em frente. Você é culpado ou
inocente?
Hussein:
Eu disse o que disse, eu não sou culpado, sou inocente.
Com agências internacionais Nova
publicada no Diário
Vermelho
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