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*Entrevista
a Abdul Jabbar al-Kubaysi, presidente da Aliança Patriótica
Iraquiana: «É o povo que resiste!»
Redacción
20 de marzo 2006 A
propósito das mobilizações mundiais contra a
guerra e a ocupação do Iraque, que decorrerão
no dia 18, passou por Portugal o presidente da Aliança
Patriótica Iraquiana, Abdul Jabbar al-Kubaysi. Cumprindo o
seu papel de dar voz a quem o capitalismo não quer que
fale, e porque desde a primeira hora estivemos ao lado do povo
iraquiano contra a barbárie, o Avante! foi falar
com o político e resistente iraquiano.
A
20 de Março de 2003, os EUA e a Grã-Bretanha
lideraram um ataque militar contra o Iraque que culminaria com a
invasão e ocupação permanente do país.
Três anos volvidos, restam poucas dúvidas que as
razões invocadas para «legitimar» a guerra não
passaram de falsos pretextos, cortinas de fumo para ocultar a
pilhagem dos recursos naturais da região, rentabilizando,
simultaneamente, a industria de armamento anglo-norte-americana e
a especulação bolsista de um punhado de
multinacionais. Os lucros fabulosos acumulados pelas companhias
envolvidas na guerra e na «reconstrução»,
contrastam com a miséria e os crimes a que foram sujeitos
milhões de iraqu
«Os
ocupantes encontram-se em condições terríveis,
têm inimigos em todas as ruas»
ianos. As torturas, os abusos, as limpezas étnicas,
os assassínios selectivos, as armas químicas usadas
indiscriminadamente contra civis, são o espelho da
brutalidade imperial. Os cadáveres contam-se aos milhares,
mas os ocupantes chamam-lhes «danos colaterais»,
«vítimas do terrorismo». De quem? –
importa saber. Entre o esclarecimento proporcionado por uma
conversa franca e aberta com al-Kubaysi, fica uma interrogação.
Quando no próximo sábado dispensarmos um pouco do
nosso tempo e camaradagem para nos juntarmos no Largo do Camões,
em Lisboa. Quando connosco estiverem milhões de pessoas
solidárias e unidas pelo mesmo protesto, talvez seja
importante acrescentar uma mensagem para o povo do Iraque:
Obrigado por resistirem!
Quando os
norte-americanos atacaram o Iraque, qual foi a posição
assumida pela Aliança Patriótica Iraquiana e os
grupos que convosco colaboram?
Abdul
Jabbar al-Kubaysi: Quando a guerra foi desencadeada,
muitos de nós, que havíamos sido severamente
reprimidos e torturados pelo regime de Saddam Hussein, percebemos
que não podíamos estar ao lado da invasão
anglo-norte-americana. Não era possível capitular
perante a história de soberania do Iraque. Claro, houve
gente que hesitou, que concordava que não era correcto
estar ao lado do bombardeamento e da ocupação do
nosso país, mas... colocavam um mas, e a partir desse
momento vacilavam. Muitos dos que se encontravam no exílio
procuraram encaixar no novo regime, com lugares no governo, nas
universidades, como embaixadores, mas com o passar das semanas,
após longas discussões e uma análise da
situação no terreno, fomos ganhando força e
credibilidade, nós os que desde a primeira hora nos
opusemos à guerra. Quando digo nós, falo no comando
central dos comunistas e outros grupos políticos que,
embora minoritários, sem dinheiro, apenas com vontade e um
jornal pobre e sem meios, tratámos de dar continuidade ao
movimento político de resistência. Com o tempo,
com a pressão do povo, que também começou a
acordar, juntaram-se alguns militares que nem tiveram
possibilidade de combater. Neste momento, são um dos grupos
mais numerosos da resistência e penso que não
decidiram resistir por terem sido membros do Partido Baas, mas
porque assumiram uma posição patriota.
Mas
a ideia que passou para o ocidente foi que a resistência
emergiu de grupos religiosos...
Não
foi assim que as coisas funcionaram no terreno. Inicialmente,
surgiram centenas de grupos que pegaram em armas. Trabalhadores,
soldados e oficiais, jovens, muitos jovens que perceberam o que ia
ser a ocupação e se juntavam por bairro, porque
havia um militar que tomava a iniciativa, sem ligações
a partidos ou facções religiosas, na esmagadora
maioria dos casos. Este movimento de resistência quase
expontâneo atacava as forças ocupantes e regressava
às suas casas, voltava às suas vidas. Só
depois surgiram organizações mais complexas, de
comunistas, de ex-membros do Partido Baas, de inspiração
religiosa mas que, mesmo hoje, não fazem das suas acções
nenhuma «guerra santa», ou o que for que os EUA gostam
de lhes chamar. Com o passar do tempo e o agravar da situação
os grupos dispersos começaram a unir-se, paulatinamente,
até que hoje temos cerca de seis a sete grandes grupos com
milhares de guerrilheiros. Entre estes encontras comunistas,
Baatistas, muitas sensibilidades, mas que resistem porque chegaram
à conclusão que esse é o único caminho
e o primeiro objectivo. Mesmo no interior dos grupos temos
diversas «cores» políticas e religiosas, isto
é, se estás na tua cidade ou na tua região,
tens uma determinada opção política ou
religiosa, não te vais deslocar milhares de quilómetros
para integrar um grupo liderado por alguém que pense
exactamente como tu. Se tens vontade de combater, juntas-te à
resistência na tua zona, és aceite tal qual és
e continuas livre de pensar como queiras, de manter as tuas
convicções e linguagem. Esta foi a fórmula
para unir toda a gente. Outra coisa é a Frente
Patriótica de Libertação que formámos
à cerca de cinco meses, a qual integra o comando central do
Partido Comunista Iraquiano – que é o resultado da
cisão do antigo PCI existente nos anos 60 -, a Aliança
Patriótica Iraquiana, os Baatistas e um grupo chamado
Patriotas Democráticos.
Então o
fundamental do vosso objectivo passa pela expulsão dos
norte-americanos, e só depois discutirão o futuro do
país?
Mesmo agora vamos discutindo o
futuro, claro, somos quatro partidos políticos diferentes.
O que pensamos é que a questão central neste momento
passa pela coordenação da resistência, que
também está representada mas que não é
uma força política homogénea.
Criando
falsas divisões
E as
tensões étnicas que aparentemente violentam o
Iraque, que papel desempenham esses grupos?
Bom,
sabemos que essa é a imagem que passa, mas a verdade é
que essas milícias representam os membros do governo, do
parlamento, servem os interesses norte-americanos. Milicianos
sunitas do Partido Islâmico do Iraque, pró-Arábia
Saudita, responsáveis por atentados, estão no
governo, têm dois ministros, estão representados no
parlamento. Com os partidos políticos xiitas acontece a
mesma coisa. É uma guerra pela partilha do poder. A questão
é que, para incendiarem os ânimos, não se
matam entre si, violentam sunitas e xiitas inocentes.
Acha
que o objectivo é criar uma atmosfera de medo?
Absolutamente. Deixar as pessoas aterradas e
levá-las a apoiar um país dividido, sobretudo da
parte do xiitas, no Sul, com claro interesse da parte do
Irão. Quando se diz que a resistência é
sunita e que só mata xiitas é uma mentira que, para
milhares de iraquianos, se vai revelando com mais clareza. Há
exemplos de acções da resistência contra
xiitas, sunitas, é indiferente, porquanto que estejam no
poder, na medida em que colaborem com os ocupantes, é o que
realmente os transforma em alvos.
Consciência
cresce entre o povo
Pensa que o
povo iraquiano demonstra hoje uma maior consciência da
necessidade de lutar do que nos primeiros meses da ocupação?
Neste momento tornou-se uma cultura.
Inicialmente, a resistência começou por se traduzir
muito num sentimento de repúdio pela presença de
tropas estrangeiras no país, mas agora a consciência
é maior, as pessoas, mesmo as mais ignorantes, praticamente
sem instrução, começam a discutir política
e a perceber o que está em causa. É importante
que esta cultura se tenha espalhado entre a gente simples, entre o
povo. Vamos perguntar a um camponês ou a uma mulher o que é
a política? Ela não te sabe dizer o que é,
mas sabe que deve lutar, e se não tem condições
para o fazer, pelo menos percebe que tem que incitar os que
conhece a resistirem à ocupação. Perderam
o medo, mesmo quando sabem que muito provavelmente vão
perder um familiar. Uma vizinha minha perdeu 11 filhos nesta
guerra e o que realmente impressiona é que ela já
não pensa que os seus morreram em vão, antes, tem
orgulho. Na nossa tradição, quando morre alguém
da família, recebem-se os vizinhos em casa e serve-se café
forte, sem açúcar, como sinal da amargura da perda.
Ultimamente, quando morre um rapaz ou uma rapariga na resistência,
serve-se sumo, em sinal de orgulho pelo que fez. A caminho do
cemitério, cantam-se músicas revolucionárias,
e todos vêm para prestar homenagem. As mulheres ululam como
quando há um casamento, neste caso, anunciam a união
com a causa da liberdade do seu país. Claro que é
uma dor e uma mágoa só perceptível por quem a
sente, mas pior seria se o filho, a filha, o marido ou o irmão
quebrassem perante o invasor.
Qual a
importância da solidariedade internacional com o Iraque
nesse contexto?
É fundamental para
que se perceba que o que a guerra não é um «choque
de civilizações» entre cristãos e
muçulmanos, como quer fazer passar George W. Bush. Muitos
iraquianos pensaram que era essa a razão pela qual os
atacavam, por serem muçulmanos. Quando ocorreram as
primeiras grandes mobilizações mundiais, com milhões
de pessoas nas ruas contra a guerra e a ocupação do
nosso país, começaram a perceber que afinal, gente
comum da Europa, dos EUA, gente como eles, com razões para
viver, com família, com amor pela pátria, também
estava contra a guerra. Isso para o povo iraquiano é ao
mesmo tempo um grande orgulho e uma grande responsabilidade. É
isso que também os ajuda e entusiasma a não
desistirem. É o povo que resiste! Quando eu me
encontrava preso, trouxeram-me cartas de gente de Espanha, da
Itália, de França, pessoas que eu não conheço
mas que exigiam a minha libertação. Claro, também
levaram as cartas para os interrogatórios e queriam saber
quem eram os amigos, se eram operacionais, contactos subversivos.
No mínimo, são iniciativas que os fazem pensar e
temer pela força que se levanta contra a
ocupação.
Confiança
no futuro
Pensa regressar ao
Iraque? Não tem receio de voltar a ser detido?
Para
onde vou? É a minha terra. Não sou um soldado, sou
político. O que tento fazer é minimizar as hipóteses
de ser capturado novamente. Arrisco as minhas hipóteses na
vida, tenho que o fazer pelo meu país, tal como o fazem
milhares de iraquianos que também são procurados,
também são perseguidos.
Onde vai
buscar essa determinação para voltar? O que pensa a
sua família?
Temos a consciência
de que é necessário, mesmo que as nossas famílias,
especialmente os filhos, estranhem a ausência. As crianças
fazem muitas perguntas, não é com facilidade que as
enganamos (risos). Se pensarmos que o mesmo sentimento de
revolta é partilhado por outro iraquiano, qualquer um, que
vende tomate na rua para sobreviver, por exemplo, e ainda assim
espera pacientemente pela oportunidade para demonstrar
resistência, percebemos que temos que continuar.
A
libertação do Iraque é um objectivo que pensa
ser alcançável em breve?
Não
só tenho a certeza, como sei que é inevitável.
Os ocupantes encontram-se em condições terríveis,
têm inimigos em todas as ruas, a imensa maioria dos
iraquianos está contra a sua presença, não
são só os grupos armados da resistência. É
essa a nossa força. A palavra que passa é que eles
se encontram numa estrada em direcção ao inferno. É
sabido, mesmo pelos políticos e comandantes militares no
terreno, que a guerra está perdida. São os próprios
que o dizem, mas não admitem o facto publicamente. Com
isto não se fique a pensar que o que dizemos é que
quando forem embora não terão que compensar o povo
do Iraque pelos estragos que fizeram, pelas vítimas que
deixaram. Não! Nós temos direito a que nos restituam
as perdas. Que razão é essa de invadir, matar,
saquear um país e depois ir embora como se nada fosse? Não
vamos aceitar essa condição.
Crimes
de Guerra
Pode-nos fazer
um relato do que se passou em cidades como Fallujah ou Tall Afar
durante os bombardeamentos dos EUA?
Abdul
Jabbar al-Kubaysi: Actualmente, Fallujah parece Dresden após
a II Guerra Mundial, as pessoas vivem em tendas porque quase toda
a cidade está em ruínas. Os jornalistas são
impedidos de entrar. Eles não querem que o mundo saiba a
verdade e nem os norte-americanos podem circular sem autorização
do da cadeia de comando. O que se passou em Fallujah, os
bombardeamentos com Fósforo Branco, os milhares de corpos
de homens, mulheres e crianças carbonizados, factos que
estão documentados num filme da RAI, por muito duro que vos
possa parecer, não é nada. O mesmo tipo de
cenário podemos ver se formos a Tall Afar, Ramadi, Mansur
Al Kan, um caso pouco conhecido mas que é igualmente
chocante. Samarra também, embora não esteja
exactamente no mesmo estado. No primeiro ataque a Fallujah, em
Abril de 2004, eu estava lá dentro, é a cidade onde
nasci. Morreram mais de 1600 pessoas e outras três mil
ficaram feridas. Neste último já estava preso,
mas as informações que tenho é que
assassinaram cerca de seis mil pessoas.
Qual a
razão pela qual este tipo de ataques norte-americanos foram
concentrados no norte do Iraque?
Porque foi
nessa zona que a resistência ganhou força mais
depressa. Dentro das cidades as pessoas eram livres, os soldados
não entravam. É verdade que lá se
estabeleciam bases da resistência, onde trabalhadores,
insisto, gente humilde, simples, aprendeu a fazer armas, RPG’s,
tudo manufacturado. À pouco falávamos da
resistência e das tais divergências étnicas. O
que é Tall Afar? É natural que na Europa não
saibam, mas é uma cidade de maioria xiita, e não
obstante resiste.
Batota
nas urnas partilha o poder
«Um
norte-americano, um francês e um iraquiano encontram-se num
bar em Paris depois das eleições no Iraque. O
francês, a jogar em casa, afirma que a tecnologia do seu
país é tão avançada que sete horas
após o fecho das urnas já sabiam o resultado. Pouco
dado a ficar atrás dos europeus, com ar sobranceiro, o
norte-americano revela que o feito não é novidade
porque nos EUA ficaram a saber do resultado sete minutos depois do
encerramento das assembleias de voto. Tranquilo, o iraquiano sorri
e diz que nada ultrapassa o avanço registado no seu país.
Como pode ser isso? – perguntaram com escárnio os
ocidentais. Simples – explica o iraquiano -, falámos
com os vossos embaixadores em Bagdad e ficámos a saber do
resultado sete dias antes das eleições se
realizarem.»
( «Um dia depois das
últimas eleições, esta anedota era contada
com gosto nos mercados de Bagdad» - conta al-Kubaysi )
Quanto
às eleições, fala-se insistentemente numa
fraude. O que foi que realmente se passou?
Nas
eleições constitucionais, apelámos ao povo
para que fosse votar e rejeitasse a proposta. A questão era
simples, bastava dizer sim, ou não, e ainda assim demoraram
cinco semanas a contar os votos. Eles sabiam que o resultado
lhes tinha sido desfavorável, mas insistiram e apresentaram
uma contagem de 55 por cento de aprovação do
texto. Mobilizaram-se milhares de pessoas que contestaram os
resultados. Eles reavaliaram as suas forças e fizeram uma
recontagem, mas chegaram à conclusão... que estavam
certos. Agora vamos dizer o que realmente se passou. Primeiro
disseram que bastava que dois terços dos votos se
expressassem pelo não em três das províncias
para a proposta constitucional chumbar. Posteriormente, quando se
viram derrotados, acrescentaram que isso tinha que suceder em cada
uma das províncias, isto é, arrogaram-se a dar a
volta à lei. O comando norte-americano aplaudiu dizendo que
aceitava a deliberação do parlamento. Mesmo
assim, há um segundo dado que foi ainda mais visível
nestas recentes eleições. Al-Zarqawi, que representa
um grupo minúsculo, sem expressão de massas, lançou
um apelo contra as eleições e ameaçou
boicotá-las pela força. O que nós, a
resistência, considerámos foi que durante três
dias não iríamos atacar, que cabia às pessoas
decidirem se iriam votar, ou não. Podíamos ter
boicotado o sufrágio pela força, até porque
nos manifestámos contra o embuste, esclarecemos que era
desfavorável aos interesses populares, mas sabíamos
que se optássemos pela violência quem acabaria por
colher frutos era Al-Zarqawi. A verdade é que ele não
conseguiu impedir as eleições em nenhuma vila ou
cidade. Os que foram a eleições, partidos sunitas
ou xiitas, dividiram-se por áreas. Onde são maioria
não permitiram que os oponentes fossem às urnas, por
isso ganharam. Os EUA, mais uma vez, dividiram para reinar e, mais
grave, pensaram dar um golpe na unidade territorial do país,
um dos seus verdadeiros objectivos. Então, como eu
dizia, cada partido levou boletins e encheu as caixas onde e como
pode. Quando contaram os boletins, eram mais do que a população
votante, isto não foi falado. A propaganda disse que a
maioria foi votar, mas o povo sabe que tal não corresponde
à verdade. Um exemplo. Num bairro em Bagdad não
existe maioria de nenhuma das facções, por isso
concorreram ambas e controlaram-se mutuamente. A participação
foi de 18 por cento, não de mais de 90 por cento, como
afirmaram em centenas de mesas eleitorais. Os que se lhes opõem,
asseguro, não foram às eleições.
Destaque:
«Nos primeiros dez dias, meteram-me numa caixa de madeira
com pouco mais de 70 centímetros, de pés e mãos
atadas atrás das costas»
Na
prisão do império
Esteve
detido cerca de um ano e meio. Que condições
encontrou na prisão e como é que os norte-americanos
o trataram?
Primeiro
temos que esclarecer que no Iraque não existe só Abu
Grahib, mas 30 grandes prisões. Uma das maiores, a norte
de Bagdad, junto a uma pequena povoação chamada
Al-Bagadadi, era uma antiga base do exército iraquiano e
nós sabemos que os EUA têm lá mais de nove mil
pessoas e que as torturam. Outra, em Badush, a norte de Mossul,
também tem o mesmo número de presos, mas a maior de
todas fica em Balad, a caminho de Samarra, dentro de um complexo
militar norte-americano. Com isto quero sublinhar que, na
verdade, os EUA mantêm presos mais de 80 mil iraquianos, e
antes das últimas eleições eram 192 mil os
encarcerados. Mesmo as mulheres que se encontram presas –
que calculámos em mais de 400 – foram levadas por
duas razões: ou têm uma relação com
alguém pertencente à resistência, ou quando os
soldados chegaram à sua casa e perceberam que os homens não
se encontravam, levaram as mulheres para os obrigar a
deslocarem-se às bases, mesmo sem provas de que pertençam
à resistência. Isto nem nos tempos da ditadura se
fazia no Iraque, era inaceitável. Também sabemos
que os tipos de tortura variam muito, desde choques eléctricos,
queimaduras no corpo, até às coisas mais bizarras,
como fazerem pilhas humanas e dispararem. Penso que pretendem
provar que têm melhor pontaria... Na prisão onde
eu estava ouviam-se muitas histórias, relatos de muita
gente porque é um dos locais que funciona como plataforma
para as transferências. Um preso chega, fica dois, três
dias, depois é levado. Por vezes nem precisavam de falar,
nós víamos o estado em que chegavam e imaginávamos
o que lhes haviam feito. No meu caso, durante cinco meses e
meio, fui interrogado todos os dias. A determinada altura,
talvez nos últimos nove meses, recebia cartas através
da Cruz Vermelha Internacional. As duas primeiras linhas, onde
vinham os cumprimentos e as saudades que família escrevia,
vinham intactas, o restante estava completamente rasurado para nos
fazer quebrar. Depois trouxeram-me os desenhos que os meus filhos
tinham enviado para um interrogatório e diziam que era um
código. Bem, eu só podia dizer que o meu filho
era um rapazinho de nove anos e que eles nem isso eram capazes de
perceber, que estavam loucos. Vivem no medo.
O
que pretendiam saber?
Perguntavam-me
sobre a resistência, quem conhecia no Iraque e na Europa,
onde tinha estado, quais os contactos que tinha no mundo árabe.
Acusaram-me de ser o coordenador entre os grupos insurgentes, de
ser o teórico da resistência. Nos primeiros dez
dias, meteram-me numa caixa de madeira com pouco mais de 70
centímetros, de pés e mãos atadas atrás
das costas, com correntes, no escuro. Quando era vencido pelo
cansaço e me obrigava a dormir, não me deixavam por
mais de dez minutos, gritavam o meu número. Não
me davam água nem comida, e quando davam alguma coisa era
quase nada [n.d.r.: pouco mais de um terço de uma chávena
de café, indicou-nos]. De dois em dois dias, davam um
pedaço de pão que era metade de um punho fechado,
nem para alimentar um pequeno pássaro chegava. Nesse
período, mesmo a água que me serviam estava a cerca
de 40 graus, e nunca me tiravam a venda nem me indicavam onde
estava o copo. Depois disto, fui transferido para uma cela, mas
sempre que me obrigavam a sair voltavam a tapar-me com uma venda e
algemavam-me. Nunca estive sem algemas fora da cela, penso que por
terem medo de serem atacados.
Então
pressentiu que mesmo os soldados que o guardavam estavam
amedrontados?
Eles
vivem aterrorizados como coelhos! Todos os dias a base onde me
encontrava era atacada por rockets, de noite ou de dia, nunca
falhava. Quando o ataque começava, ficávamos
contentes, claro, mesmo que por vezes as explosões se
dessem a escassos cem metros de nós. Os guardas vinham para
junto dos presos, aterrorizados, gritavam, corriam. Julgo que
pensavam que mais perto das nossas celas não corriam
perigo. Muitas vezes riamos da situação e
perguntávamos: és um soldado, porque é que
tens medo? Tenho medo de morrer, diziam. Então percebemos,
e alguns começaram a contar que só no Iraque se
aperceberam que foram enganados.
Falou
com muitos soldados nessa situação?
Muitos,
pessoas com quem comunicava quando me traziam alguma comida, ou
faziam a ronda. Certa vez, um perguntou-me: Qual era a tua
patente no exército? Eu respondi que não era
militar, era engenheiro civil e estava preso por razões
políticas. Ficou confuso e disse: então era do
governo do Saddam? Eu expliquei que não, que estava
exilado, que tinha combatido Saddam. Porque razão está
preso? – continuou. Eu só lhe respondi que fosse
perguntar ao seu governo. Depois indiquei vários presos,
uns tinham sido professores, outros médicos, outros
operários. A determinada altura começavam a falar
connosco, mas não é possível aprofundar muito
a conversa porque o sistema não permite criar laços
com o guarda. Todos os dias mudam a escala e de duas em duas
semanas retiram o soldado de uma determinada rotina. De quando
em quando voltam, e nesses momentos alguns revelavam o que lhes
haviam contado. Disseram-lhes que éramos perigosos, que nem
sequer tirassem os óculos de protecção junto
de nós porque éramos de tal forma selvagens que, à
primeira oportunidade, lhes furaríamos os olhos com os
garfos de plástico (sorri). Quando descobriam que não
era assim, ficaram com dúvidas. A um outro soldado tive
que contar que me tinha licenciado pela Universidade Americana de
Beirute, e que o tipo da cela ao lado também. Ficou
espantado, a pensar. Quando estes episódios aconteciam,
revelavam, por exemplo, que foram treinados durante pouco mais de
seis meses, três dos quais, numa «formação»
sobre o Iraque, na qual lhes contaram todo o tipo de mentiras.
Alguns prometeram que, acabado o contrato, nunca mais voltariam. A
esmagadora maioria são jovens entre os 18 e os 21 anos que
foram enganados, arregimentados como mercenários, a troco
de dinheiro, do pagamento das propinas da universidade que de
outro modo não podiam pagar, da carta de cidadania
norte-americana, uma «moeda de troca» que deve ser
muito comum.
Fonte:
Jornal
Avante!.
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