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*"Chamada
de Bamako” convoca frente de combate ao novo imperialismo
dos países do Norte
Redacción
20 de xaneiro 2006
Organizações
africanas lançam em Bamako frente antiimperialistas de
países do sul inspirados na Conferência da Bandung,
histórica articulação de chefes de Estado
contra a colonização. Desta vez, a idéia é
investir na organização da sociedade civil e não
necessariamente na cooperação entre governos.
Por
Bia Barbosa
Bamako – Em 1955, vinte e nove chefes de
Estado de países asiáticos e africanos que haviam
conquistado recentemente sua independência da Europa
decidiram se reunir para pressionar o mundo pelo fim da
colonização de seus vizinhos de continente. A
Conferência de Bandung, convocada pelos governos da anfitriã
Indonésia, da Birmânia, do Ceilão, da Índia
e do Paquistão, e que contou com a participação
de lideranças como o presidente Nasser, do Egito, e o
primeiro ministro chinês Chou En Lai, marcou a entrada do
chamado terceiro mundo na cena internacional. Para garantir uma
cooperação econômica, cultural e política
entre os países presentes, Bandung defendeu fortemente o
direito dos povos escolherem livremente seus sistemas políticos
e econômicos. E reafirmou princípios como o
reconhecimento da igualdade entre todas as raças e países,
o respeito aos direitos humanos e a paz, e a recusa à
servidão aos interesses de quaisquer potências e ao
uso da força contra a independência política
de um país. Declarou, portanto, o imperialismo e o
colonialismo males que deveriam rapidamente chegar ao
fim.
Inspiração
Cinqüenta
anos depois, o espírito de Bandung e dos chamados
altermundistas foi evocado à véspera da abertura do
Fórum Social Mundial de Bamako, no Mali, para inspirar os
atuais críticos da globalização neoliberal a
reorganizar suas forças. Convocado pelo Fórum
Mundial das Alternativas, o Fórum do Terceiro Mundo, o
Fórum por um Outro Mali e pela Enda – uma das maiores
organizações não governamentais africanas –,
o encontro reuniu mais de 300 representantes de movimentos
sociais, sindicatos e ONGs, intelectuais e parlamentares dos cinco
continentes, visando a criação de uma frente de
combate ao novo imperialismo.
"A Conferência de
Bandung foi um dos eventos mais marcantes da história
recente dos países do sul. Se estamos aqui hoje é
para lembrar o combate que nossos povos travaram para sair da
colonização e da escravidão. Mas a lembrança
não deve parar aí. Todos esses esforços de
igualdade e de solidariedade devem refundar a idéia de
estarmos juntos para construir um outro mundo", disse Taoufik
Ben Abdallah, da Enda e também membro Secretariado do Fórum
Social Africano. "Temos que repensar a maneira de construir
nossa unidade para resistir melhor e fazer funcionar este mundo a
que aspiramos. Reconstruir uma frente do sul hoje é algo
que deve levar em conta a hegemonia, a dependência, a
servidão, mas também nosso desejo fundamental de
liberdade e justiça", acredita Abdallah.
A
idéia é que a reconstrução deste
frente de países do sul – que desta vez é
baseada na organização da sociedade civil e não
necessariamente na cooperação entre governos, como
aconteceu em Bandung – possibilite um avanço do
movimento altermundista em direção a propostas
concretas por um outro mundo. "O momento agora é de
transformar o que já produzimos em combustível
intelectual para que possamos agir de outra forma. Para que
passemos de um coletivo, que somos hoje, para a construção
de um ator coletivo, ativo e contra-hegemônico",
explica Ignácio Ramonet, fundador da Attac França e
jornalista do "Le Monde Diplomatique".
Mas, se
os desafios atuais são da mesma natureza de 50 anos atrás
– combater uma política colonial fundada sobre a
desigualdade entre os povos –, o contexto é bastante
diferente da época de Bandung, com a hegemonia
norte-americana provocando o que os participantes do seminário
definiram como um “apartheid em escala mundial”. Para
eles, a reversão deste processo exige, portanto, o
desenvolvimento de estratégias políticas de curto e
longo prazo, que passam pela retomada do internacionalismo dos
povos, do norte e do sul.
“A soberania dos povos não
pode ser construída com a caridade das grandes potências,
mas seguindo os interesses das classes populares contra os
sistemas hegemônicos, o imperialismo, o capitalismo
neoliberal e a oligarquia financeira que controla todo o sistema”,
afirma o sociólogo egípcio Samir Amin, idealizador
do evento, diretor do Fórum do Terceiro Mundo e presidente
do Fórum Mundial das Alternativas.
Objetivos
O
resultado da conferência realizada anteontem (18/1) em
Bamako é um documento intitulado “Chamada de Bamako”
( “L’Appel de Bamako” em francês), que
traz uma série de propostas para o movimento altermundista.
Por trás delas, dois objetivos centrais: primeiro, a
retomada dos fóruns de gestão do capitalismo
neoliberal – leia-se a transformação ou
substituição de instituições como a
Organização Mundial do Comércio e o Fundo
Monetário Internacional. Na opinião de Amin, a OMC
funciona hoje como um novo “ministério das colônias”,
que define o que os países pobres têm direito ou não
de fazer. Já o FMI, a “autoridade monetária
internacional”, assume o antigo papel das metrópoles,
gerindo as moedas “coloniais” sem se preocupar com a
relação entre o dólar e o euro.
O
segundo grande objetivo é combater o terrorismo de Estado
imposto pelo Estados Unidos para garantir a manutenção
da ordem vigente. “O sistema neoliberal não pode
funcionar de forma democrática ou pacífica. Quando
75% da população do mundo estão sob a tutela
de poucos milionários, eles são obrigados a reprimir
com violência qualquer tentativa de oposição.
E é isso que os Estados Unidos faz: controla militarmente o
planeta em benefício deste sistema injusto e criminal. Este
não é um projeto teórico; está
funcionando já, com a ocupação do Iraque, com
os conflitos na Palestina, com bombardeamentos aqui e a acolá”,
explica Amin.
O alcance desses dois objetivos centrais
passaria por objetivos estratégicos como:
–
o combate ao controle do planeta pelo Estados Unidos e pela
construção de um sistema mundial multilateral,
baseado na paz, no direito e na negociação: aqui, os
altermundistas reafirmaram o papel das Nações Unidas
e propuseram, concretamente, a organização de
campanhas contra as bases norte-americanas em todo o mundo e pela
retirada das tropas do Iraque. Uma jornada internacional de
manifestações está prevista para os dias 18 e
19 de março.
– o combate à globalização
neoliberal e a defesa de uma globalização negociada,
onde o acesso aos mercados seja feito numa perspectiva de redução
das desigualdades mundiais e de garantia dos direitos dos
trabalhadores: foi proposta a criação de um tribunal
especial para julgar os crimes econômicos, de centrais
sindicais internacionais para se contraporem às
multinacionais e o desenvolvimento de campanhas contra os acordos
de cooperação econômica assinados entre os
países africanos e a União Européia.
–
a criação de blocos regionais que fortaleçam
os países do sul nas negociações globais,
como o Mercosul e a Alba (Alternativa Bolivariana) para se opor à
Alca (Área de Livre Comércio das Américas).
–
contra a mercantilização dos recursos naturais e que
sua exploração seja subordinada ao direito coletivo
à vida : devem ser desenvolvidas ações
concretas contra a privazação da água imposta
pelo Banco Mundial e um observatório mundial do
meio-ambiente deve ser instalado;
–pela defesa dos
pequenos produtores agrícolas e a criação de
condições para o seu desenvolvimento, afirmando a
prioridade da soberania alimentar nas negociações
comerciais: também será elaborada uma campanha neste
sentido, ao lado da provisão de auxílio aos
movimentos nas negociações de Doha ainda em
curso.
– contra o álibe da democracia
eleitoral e pela construção de uma democratização
de todos os aspectos da vida social : a importância de se
afirmar os direitos sociais em complementação aos
direitos civis e políticos, a defesa dos bens comuns e dos
serviços públicos e a « repolitização
» da economia. A idéia é encorajar todas as
formas de participação popular neste sentido.
–pela
reforma da ONU e o fortalecimento da presença dos
movimentos sociais no seio das Nações Unidas : será
criado um observatório para monitorar o comportamento dos
governos em relação à sociedade civil na
ONU.
Mundo multilateral
"Bandung impôs
um recuo aos imperialistas, para que eles se ajustassem às
nossas demandas fundamentais. Hoje, é o capital dominante
que faz exigências aos explorações. Esse
capital precisa se ajustar de alguma forma. O importante é
pressionar para o outro lado", afirma Samir Amin. «O
capitalismo é o sistema flexível, capaz de absorver
as mudanças na correlação de forças a
seu desfavor, e de recuperar seu poder. Portanto, não
podemos apenas recusar o unilateralismo, e sim construir
alternativas para um mundo multilateral. Isso leva tempo, as
pessoas não adquirem consciência de uma hora para a
outra; não é fazendo um, cinco ou dez discursos que
modificamos o pensamento popular. A consciência popular se
modifica ela própria através da experiência de
luta. É por isso que essas experiências de luta devem
ser motivo de uma revisão e reflexão permanente. É
isso que esperamos deste processo”, conclui.
Se o
espírito de Bandung se somar à determinação
de Bamako, que nos anos 60 esteve na vanguarda da libertação
dos países africanos e foi a primeira capital do sul do
Saara a conseguir sua independência, o caminho a ser
percorrido pelos altermundistas pode ser longo e sinuoso, mas
certamente será algo por que se vale a pena lutar.
Ruídos
na cúpula
O encontro que relembrou a
Conferência de Bandung e lançou a frente dos países
do sul contra o imperialismo, convocado pelo Fórum Mundial
das Alternativas, o Fórum do Terceiro Mundo, o Fórum
por um Outro Mali e pela Eenda, acabou gerando ruídos entre
a cúpula do FSM, já que alguns membros do Conselho
Internacional (CI) questionaram o caráter decisório
do evento, contrário ao que define a Carta de Princípios
do Fórum. A reação se deu em função
de uma convocatória que apresentava o evento como a
abertura dos trabalhos do Fórum Social Mundial de Bamako. A
carta-convite distribuída dizia mesmo que, se quisessem, os
participantes do evento poderiam ficar em Bamako “nos dias
seguintes” para participar das demais atividades do FSM –
destacando, portanto, fortemente, a importância desta
conferência diante das demais atividades do Fórum.
Outro documento chamando à participação das
organizações da sociedade civil contava também
com a assinatura do coordenador do comitê local da
organização do FSM, o que gerou ruídos, já
que a abertura oficial do Fórum estava prevista somente
para ontem (19).
Na abertura da conferência
anteontem, no entanto, todas falas fizeram questão de
reforçar que o evento não fazia parte das atividades
oficiais do FSM de Bamako (por mais que aparecesse no site do
Fórum como parte da programação e tivesse
sido citado por membros do secretariado de coordenação
do Mali como «um dos pontos fortes do FSM»).
“O
Fórum Social Mundial continua sendo um lugar de encontros.
Mas este lugar não deve ser simplesmente isso, mas um
espaço para que os que vão se encontrar possam ir
além, possam definir objetivos e estratégias de luta
comum”, disse Samir Amin. “Se o FSM não tem
resoluções, nós podemos ter. Temos o direito
de nos organizar como quisermos, para fazermos o que quisermos e
quando quisermos”, completou.
São essas
definições que são apresentadas no “Chamado
de Bamako”, que pode ser encarado de forma parecida ao
Manifesto de Porto Alegre, que foi bastante criticado pelos
organizadores do Fórum Social Mundial no último ano.
O receio de alguns membros do Conselho Internacional do FSM agora
é o mesmo: que o documento construído anteontem
fique para a “posteridade” como o mais importante do
FSM de Bamako (o Manifesto de Porto Alegre, que não é
e não pretende ser um documento “oficial” do
FSM 2005, é citado em todos os momentos e está em
todos os jornais que circulam em Bamako). Com a agravante que o
Fórum de Bamako nem mesmo começou
oficialmente.
Fonte:
Diário
Vermelho.
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