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*Igreja
tem ocultado casos de pedofilia há 75 anos
Redacción
13 de outubro 2005
Os arquivos pessoais confidenciais de 126 membros do
clero da Arquidiocese Católica Romana de Los Angeles,
acusados de abusos sexuais contra crianças, fornecem uma
narrativa entorpecedora de 75 anos de vergonha da Igreja,
revelando caso após caso em que a Igreja foi alertada do
abuso mas fracassou em proteger seus fiéis.
Em
alguns casos, o cardeal Roger M. Mahony e seus antecessores
transferiram discretamente os padres para terapia e então
para novas funções. Em outros, foi oferecido aos
pais terapia para seus filhos e o pedido para que permanecessem em
silêncio.
Ao
longo dos arquivos, casos de crianças molestadas ou
estupradas são tratados de forma indireta ou por
eufemismos, com referências a questões de "idoneidade
moral" ou acusações de "violações
dos limites". Por anos, queixas anônimas de abuso foram
ignoradas e os padres receberam o benefício da dúvida.
Os
arquivos pessoais - alguns dos quais datados dos anos 30 - foram
resultado de parte das negociações de acordo com os
advogados de 560 vítimas em um processo civil daqui.
A
Igreja os forneceu a The New York Times antes de sua divulgação
pública nos próximos dias. A arquidiocese os está
divulgando como cumprimento de sua promessa aos fiéis de
expor as ações da Igreja no escândalo,
disseram autoridades religiosas. Ela também espera que a
divulgação estimule as negociações de
acordo, que parecem ter estagnado nos últimos
meses.
Maquiagem
Raymond P. Boucher, o
principal advogado dos que estão processando a Igreja,
disse que foi removido das versões dos arquivos divulgados
pelas autoridades religiosas grande parte dos detalhes danosos das
acusações e da respostas da Igreja. Ele disse que a
divulgação era principalmente uma medida de relações
públicas por parte do clero, à medida que ambos os
lados se preparam para o julgamento dos primeiros
casos.
"Infelizmente, estes arquivos não contêm
toda a história da participação da Igreja na
manipulação e transferência dos padres",
disse Boucher. "Os arquivos integrais mostrarão quão
profundo e disseminado era este problema e quanto a Igreja colocou
seus interesses acima dos das crianças e de outros que
foram molestados pelos padres. Esta é uma história
maior e mais profunda."
Os arquivos revelam que apenas
recentemente a Igreja passou a lidar com o comportamento abusivo e
criminoso em suas fileiras e a agir agressivamente para
contê-lo.
Prática comum
Os casos
de Los Angeles são de muitas formas semelhantes às
queixas de abuso sexual que têm manchado a Igreja em todo
país nos últimos anos. O comportamento dos padres no
Sul da Califórnia não são piores do que os
vistos em outros lugares, e a resposta de importantes autoridades
da Igreja geralmente não foi melhor. Mas o simples volume
de queixas e potencial de indenização às
vítimas coloca Los Angeles à parte das dioceses de
outras grandes cidades americanas.
Talvez o caso mais
notório daqui envolva o padre Michael Baker, que em 1987
confessou voluntariamente a Mahony, na época um arcebispo,
o relacionamento sexual com dois meninos em 1978 e 1985.
Mahony
não informou o abuso à polícia, preferindo
enviar Baker para terapia e o proibindo de ter qualquer contato
próximo com menores, como mostram os documentos. Mas ele
logo foi designado para paróquias onde encontrou facilidade
para assediar meninos novamente. Após muitas outras
tentativas fracassadas de terapia, Baker foi finalmente afastado
do sacerdócio em 2000, mas apenas após ter vindo à
tona que tinha molestado até 10 vítimas ao longo dos
20 anos anteriores.
Há muitos casos nos quais as
acusações só foram feitas muitos anos após
os supostos incidentes e algumas em que as queixas iniciais não
foram consideradas críveis. Mas ao todo, os arquivos pintam
um retrato de uma instituição em negação
sobre o que agora parece ser uma má conduta sexual
disseminada.
Indenizações
A
Arquidiocese de Los Angeles é a maior diocese católica
romana do país, cobrindo uma área de 22.500
quilômetros quadrados e que atende cerca de 5 milhões
de católicos. O tamanho do problema de abuso aqui rivaliza
com o de Boston, onde mais de 500 membros do clero foram acusados
de abusar de menores ao longo dos últimos 60 anos, e onde a
Igreja pagou US$ 85 milhões em 2003 para resolver com um
acordo as queixas civis contra ela.
De lá para cá,
os valores pagos em escândalos da Igreja aumentaram. No
final do ano passado, a Diocese de Orange County pagou US$ 100
milhões para resolver 85 casos com um acordo.
Os
advogados envolvidos nas negociações em Los Angeles
disseram que, se um acordo geral for fechado entre os 560
querelantes e a Igreja, o pagamento será significativamente
maior do que o de Boston ou Orange County, talvez ultrapassando
US$ 500 milhões. O custo de enfrentar cada caso
individualmente poderia ultrapassar em muito este valor.
Desde
1985, a arquidiocese acertou um punhado de casos de abuso de
menores, pagando um total de US$ 10 milhões.
A
arquidiocese recebeu relativamente menos queixas de abuso sexual
cometido por padres, não mais do que duas dúzias por
ano, até 2002, quando o escândalo da Igreja explodiu
nos noticiários em Boston. De lá para cá, a
Arquidiocese de Los Angeles tem recebido centenas de queixas
contra mais de 250 padres e outros funcionários da Igreja,
das quais cerca da metade estão incluídas nas
negociações de acordo.
Os documentos serão
postados em um dia ou dois no site da arquidiocese
(www.la-archdiocese.org)
ou em um site mantido pelos advogados da Igreja
(www.la-clergycases.com),
disse J. Michael Hennigan, principal advogado da
arquidiocese.
Hennigan disse que os arquivos dos padres,
apesar de não conterem muitos detalhes sobre as supostas
ofensas, fornecerão ao público uma idéia
melhor de como foi a resposta da Igreja às acusações.
"Nós queríamos mostrar o que aconteceu, quando
aconteceu, o que sabíamos e como lidamos com isto",
disse Hennigan.
Pedofilia confessada e perdoada
No
caso do padre Kevin Barmasse, os pais de um menino escreveram para
as autoridades da arquidiocese em 1983, para se queixarem de um
padre que abusou do filho deles na Saint Pancratius Church em
Lakewood, Califórnia, um subúrbio de Los Angeles.
Duas semanas depois, a arquidiocese enviou Barmasse para servir
como padre associado de uma paróquia na Diocese de Tucson,
Arizona, sob a condição de que se submetesse à
terapia.
Em um período de três anos, segundo
relatórios posteriores, ele abordou sexualmente vários
alunos colegiais. Em 1992, ele foi destituído dos deveres
sacerdotais.
Hennigan disse que Barmasse foi um dos poucos
padres que a Arquidiocese de Los Angeles permitiu que fosse
transferido para outra paróquia e continuasse atendendo
crianças após ter recebido queixas críveis.
Ele disse que a inclinação de Mahony de confiar na
terapia era a resposta típica da Igreja na época.
Por
anos, a Igreja tratou o abuso sexual cometido pelos clérigos
como uma falha moral e um pecado que podia ser confessado e
perdoado. Foi apenas nos últimos cerca de 15 anos que as
autoridades da Igreja reconheceram que pedófilos são
por natureza ofensores reincidentes e não podem ser
autorizados a ter contato não supervisionado com crianças,
disse Hennigan.
Ele comparou o comportamento das
autoridades da Igreja aqui com as de Boston, que transferiam
repetidamente os predadores sexuais de uma paróquia a outra
sem alertar o público. Tais incidentes, incluindo os casos
notórios dos ex-padres John J. Geoghan e Paul R. Shanley,
levaram à renúncia do cardeal de Boston, Bernard F.
Law, e forçaram o fechamento de dezenas de paróquias
e escolas católicas para o pagamento das
indenizações.
Apesar do número de
casos bem divulgados de abuso ocorridos aqui, Mahony permaneceu
líder da arquidiocese e a Igreja em Los Angeles parece
estar com lastro financeiro sólido. Hennigan disse
acreditar que a arquidiocese conta com recursos suficientes e
seguro para lidar com os acordos sem a necessidade do fechamento
de escolas ou venda de propriedades da Igreja.
Os advogados
dos padres acusados tentaram manter os arquivos pessoais em
segredo, dizendo que sua divulgação violava as leis
de confidencialidade de informações do funcionário
e que a informação contida neles promoverá a
parcialidade nos tribunais e entre o público contra seus
clientes.
A Igreja, apesar de argumentar que parte do
material presente nos arquivos está protegido pelo
privilégio padre-penitente e paciente-terapeuta, disse que
queria a divulgação de grande parte do conteúdo
como parte do processo de expiação.
O
material esteve nas mãos dos advogados dos querelantes por
quase três anos, mas os tribunais ordenaram que fossem
selados. A Igreja interpretou uma decisão do tribunal no
mês passado como autorizando a divulgação de
versões editadas dos arquivos pessoais. Os arquivos não
incluem os nomes dos acusadores.
"O que a Igreja está
tentando fazer é reparar os danos que causou e se
certificar, o máximo que for humanamente possível,
de que não aconteça novamente", disse Tod
Tamberg, um porta-voz da arquidiocese. "Todo este capítulo
triste na vida da Igreja é uma oportunidade para
purificação."
Fonte: The New York
Times Com intertítulos do Vermelho Nova
publicada no Diário
Vermelho
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